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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Portimão CED 2019

                                                                                       Carlos Monteiro
 
                                                      Carlos Monteiro


Melhor que passar as férias no paraíso, é ir morar lá


Portimão, Cidade Europeia do Desporto 2019.

"Esta maravilhosa cidade é habitada desde os tempos do Neolítico apresentando também fortes vestígios da civilização romana. Mas é nos tempos modernos que tem demonstrado toda a sua força, dinâmica e valor.
Situada no coração do Algarve, Portimão é hoje um dos destinos mais procurados do planeta, pelas suas praias paradisíacas, pela seu clima esplendoroso, pelas suas gentes acolhedoras.
Esta beleza e vitalidade leva a que o porto marítimo desta cidade seja atualmente o terceiro mais procurado em Portugal, logo atrás de Lisboa e Funchal, pelos navios de cruzeiro. Portimão é também hoje palco de grande eventos internacionais, com 2019 a posicionar-se como um ano muito especial por motivos de ser Cidade Europeia do Desporto.
Mas Portimão é também sinónimo de gastronomia de excelência e de hábitos de vida saudáveis, sendo esta a causa que leva a integrar esta contagiante cidade no circuito Running Wonders.
É neste Território singular que iremos dedicar uma etapa à Dieta Mediterrânica, classificada a 4 de Dezembro de 2013 como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
Iremos preparar uma grande jornada dedicada à Dieta Mediterrânica, numa etapa que encerrará o circuito Running Wonders 2019, esperando trazer até ao Algarve milhares de participantes dos quatro cantos do mundo.
Bem-vindos à etapa Running Wonders Portimão – Cidade Europeia do Desporto."

                                                                                                                   texto Running Wonders

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Exílio





                                                     fotografia Carlos Monteiro





                      Setenta anos




O velho olha para trás e há um menino
sentado no quintal. Em frente
alguém pintou um pássaro doente
batendo agora as asas sem destino.
Sou eu esse menino ou sou
o pássaro doente? E aonde vou
se é o quintal uma saudade ausente
e de mim afinal nada sobrou?
Agora o velho já não tem quintal.
A noite cai em cima da memória
como uma pedra na água mais serena.
A tua boca, mãe, sabia a sal
e há muito que saiu da tua história
esse menino de quem hoje tenho pena.

( de Manuel Alberto Valente, Póvoa de Varzim, Correntes D’Escrita 2017)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Pátria







                          Quando a pátria que temos não a temos
                          Perdida por silêncios e por renúncia
                          Até a voz do mar se torna exílio
                          E a luz que nos rodeia é como grades
                                          
                                                     em "Livro sexto" 1962
                                              Sophia de Mello Andressen


                     


sábado, 27 de maio de 2017

27 de Maio de 1977

                  O que diria Simão Toco de tudo isto?



Semana dura esta que agora termina.
  Há 40 anos eu já não lisonjeava os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvavam e curvam no mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção… Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre.
  E foi por isso que há 40 anos abandonei a minha terra.
Há 40 anos ocorreu a “inventona” do 27 de Maio em Luanda. O regime comunista de Agostinho Neto (poeta ??) proclamou que a partir daquela data já não havia meias tintas, ou se era pela revolução ou se era contra ela e assassinou milhares de filhos da pátria angolana.
  Os artistas que eram detentores da alma Angolana e que transportavam todo esse legado musical foram assassinados no 27 de Maio de 1977. 
  A Comissão das Lágrimas composta por gente que se supunha ser gente de bem, foi o trampolim usado pelo regime para mandar assassinar milhares de angolanos.

A ligeireza com que mataram tantos angolanos culpabilizando a sua opinião divergente foi e é de bradar aos céus.

  Mas os bandidos tiveram com quem aprender durante 500 anos. Foram alunos exemplares. Saíram melhores que os professores. Por aqui grandes empresas também “inventaram” a avaliação do potencial dos seus trabalhadores que permitem a alguns pulhas desonestos “crucifixar” aqueles que de si dependem hierarquicamente. Numa folha de papel colocam uns números que soam às antigas chicotadas nos escravos e às antigas pedradas nos cães. É crime maltratar os animais. Os “avaliados” ficam a aguardar por melhores dias.
  Tive amigos que partiram no 27 de Maio e agora tenho amigos que são “chicoteados” ou “apedrejados”. É assim a miséria humana.
  Mas nem tudo é mau. O filho do Presidente, irmão da Isabel dos Santos (que singrou na vida a vender ovos), comprou num leilão em Cannes, um relógio por meio milhão de euros.
  Bendita Revolução, Danilo dos Santos. O Povo é o MPLA. O MPLA é o Povo.
  Euros e dólares não faltam. O que é preciso é avisar a malta que há quem queira bons relógios, para saborear boas horas.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Maio 2017




  Portugal está particularmente feliz por ter recebido a visita do Papa, por ter dois novos Santos, por o Benfica ser campeão e Salvador ter ganho o festival. Feliz por saber que Angola também partilha essas alegrias.

  Baptista Bastos partiu há pouco, mas deixou-nos textos que nos suavizam as agruras dos dias, assim como há 22 anos, também em Maio mas da Bahia, partiu Neves e Sousa.

   E é neste conflito de emoções que os recordo hoje, neste mês de Maio: o BB com um excerto da crónica “O cemitério dos príncipes negros” e o NS com o poema “TAMBOR”.



Sei muito pouco de muitas coisas.

Os sítios, quero dizer: os países, os bairros, as ruas só existem nas nossas lembranças porque estão relacionados com pessoas. São as pessoas que tornam antiquadas ou actuais as nossas recordações. Por vezes penso: tiraram-me algumas coisas, mas nunca me tiraram a comovente beleza da vida.

  E agora vos digo: de vez em quando, aqui à beira desta cidade, invade-me o corpo o perfume forte de Luanda. Não é de Angola, não é de África, não é um odor tropical, nada disso. É o cheiro poderoso de Luanda, a bela. Uma mistura indefinível de húmus doce de um chão antiquíssimo que em mim perdura, creio que desde sempre e para sempre. Mesmo muito antes de conhecer Luanda.

  Talvez o ventre materno retivesse esse perfume estranho que só eu conheço, que apenas eu sinto. E emergem imagens das ruas, das pessoas, da restinga, das dezenas e dezenas de homens negros em frente às montras da Livraria Lello, na baixa de Luanda, lendo «A Bola», cujas páginas estavam lá coladas, e os homens negros discutiam entre si os desafios do futebol português, uns deles eram do Benfica, outros do Sporting, e também havia simpatizantes do Belenenses e do F. C. do Porto.





TAMBOR

Canta tambor, rufa tambor

sensual, quente, grita e clama

que uma só hora de amor

queima a vida numa chama



Não há voz mais pura

para embalar cantos de amor

que a voz quente do tambor

batucando a noite escura...



Canta tambor, rufa tambor

sensual, quente, grita e clama

que uma só hora de amor

queima a vida numa chama

terça-feira, 2 de maio de 2017

Que Viso eu? Esplanadas, Botecos e Tabernas.




                                               Que Viso eu? Esplanadas, Botecos e Tabernas.



   Viseu cidade de Viriato e das árvores da Tília. Talvez por isso a tranquilidade e a simpatia generalizada com que nos deparamos a cada esquina e em cada taberna. Recordei os tempos da juventude nas esplanadas de Luanda e a dos botecos nas várias cidades brasileiras que fui visitando ao longo destes anos. Recordações que vieram à tona na mui magnífica Pousada (antigo nosocómio) e no restaurante Moamba com o lindíssimo e sentido poema de Neves e Sousa escrito na parede, saboreando as múcuas (fruto do majestoso e milenar imbondeiro). Ali mesmo ao lado a Taberna da D. Maria com um tranquilo ambiente familiar e cultural, uma bela ementa (ai, as pataniscas de bacalhau e a tábua de queijos), um vinho abençoado por Bacco que dá sentido à afirmação do escritor, padre e médico francês François Rabelais, (que morreu precisamente 400 anos antes de eu nascer) - “Quando o vinho é de excelente qualidade como este, tem de facto o poder de encher a alma de toda a verdade, de todo o saber e filosofia”. Sem esquecer as músicas excelentemente interpretadas pelo proprietário, entre as quais destaco “et si tu n'existais pas” de Joe Dassin.. 

  De regresso a Lisboa, valeu a opção de circundar a Serra da Estrela admirando da estrada as paisagens que a ladeiam e as cidades da Guarda e da Covilhã. Antes de finalizar a viagem um petisco convenientemente regado no Cartaxo com o néctar que o Professor José Hermano Saraiva exaltava, que devido à sua textura sublinhava que não era para se beber mas… para comer.
  Se naquele tempo o vinho alimentava um milhão de portugueses, hoje com certeza alimenta muitos mais.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ondjaki e os camarões


     Juju comandante das FAPLA e o filho

     Ondjaki escritor angolano                               

Resumo da entrevista do escritor “angolano” Ondjaki:



1 - Chega a altura em que tens de tomar uma opção. A guerra anti colonial começou em 1961 e em 1968 estás na ilha de Luanda a comer camarões?
Houve brancos que ficaram em Angola depois da Independência!
Os que abandonaram, não digam - tive que sair de Angola. Foi uma opção que tomaram.
Não vamos branquear nem escurecer a história. Cada um fez as suas escolhas.

2 - Quando Savimbi morre, quem fica vivo diz: “então, eu é que sou o arquitecto da paz”. E isso vai ficando, é fácil fazer isso passar num país que esteve tanto tempo em guerra.

3 - A Isabel dos Santos fará com o seu poder financeiro aquilo que uma pessoa na América ou na Europa também consegue fazer: o lobby que bem entender. Não é só ela, mas toda uma nova geração que já vai começar a aparecer, e que tem isso de herança.

4 - Os próximos vão ter de lutar por uma distribuição mais justa e mais ética do rendimento nacional, de modo a atenuar a desigualdade social, contra décadas de uma outra filosofia. Os da geração do Ondjaki, que andaram até agora na carroçaria porque ao volante estava o pai, passam para o volante...

Meditações do autor deste blogue:


1 – Os camarões vinham a acompanhar a cerveja sem custo adicional. Havia fartura e mais oferta que procura. Os “nacionalistas” e/ou os seus filhos não comiam camarões? Quantos estavam nessa luta? Porque se refugiaram em Argel, na Zâmbia ou no Congo? Para não serem presos pela PIDE? Pois é, os muito poucos que comiam camarões e a esmagadora do resto da população, independentemente da origem e/ou da raça, também estavam quietinhos e caladinhos pelos mesmos motivos. O pai não contou assim? Então é melhor mesmo pesquisar melhor. Não ficar só com uma versão!
  Ficaram alguns poucos brancos em Angola, mas tiveram que sair nos anos seguintes. E tiveram mesmo que sair. E não foram só brancos que abandonaram a terra. O comunismo, a DISA (irmã gémea da PIDE), a fome, a falta de assistência médica e a guerra eram implacáveis para quem não vivia no Palácio ou na sua vizinhança. Não é como o pai ensinou que foi uma opção, foi mesmo um tiveram que.
  A minha filha, pais angolanos e neta de angolana, nasceu em Angola, na Maianga, em casa e sem assistência médica, depois da independência e antes do Ondjaki. E precisamente um ano depois, tivemos que…, não foi opcção como o pai ensinou!
  E isto não é nem branquear nem escurecer nem amarelecer a história.
  Aconteceu assim mesmo.

2 – Savimbi não morreu. Foi emboscado e assassinado. Por isso é que não foi arquitecto, mas sepultado.

3 – A Isabel dos Santos, a família e os generais, herdaram de quem? Como foi mesmo obtido o legado deixado. E pelo que o Ondjaki afirma, não foram só eles não. Vamos esperar quem mais vai servir para branquear a riqueza. O Povo (99,9 %) que já não acusa, nem é tido nem achado, para não ir cangado, vive como?

4 – A partir de agora é que vão ter de lutar pelo fim da miséria. Os que viajaram até agora na carroçaria? Camaradas como o Ondaki? Mas afinal ele estudou onde, se formou onde, viveu onde? Nos últimos dez anos no Rio? Não é bom viver em Angola?
Os outros Filhos da Pátria que viajaram na carroçaria até agora, estão aonde? Onde se formaram, como viveram nestes anos?

E os combinadores condutores como Juju e seus comparsas, onde estiveram nestes anos todos, em que o Povo não tem casas nem medicamentos, muitas vezes mesmo nem comida?
 
E os outros é que comiam camarões?

O tempo passou por nós deixando uma devastação indescritível, restando-nos apenas farrapos duma memória longínqua.
  
E assim a história vai ficando amarelecida pelo tempo.