Portugal está particularmente feliz por ter recebido a visita do Papa, por ter dois novos
Santos, por o Benfica ser campeão e Salvador ter ganho o festival. Feliz por saber que Angola também partilha essas alegrias.
Baptista Bastos
partiu há pouco, mas deixou-nos textos que nos suavizam as agruras dos dias,
assim como há 22 anos, também em Maio mas da Bahia, partiu Neves e Sousa.
E é neste conflito de emoções que os recordo
hoje, neste mês de Maio: o BB com um excerto da crónica “O cemitério dos
príncipes negros” e o NS com o poema “TAMBOR”.
Sei muito pouco de
muitas coisas.
Os sítios, quero dizer: os países, os bairros, as ruas só
existem nas nossas lembranças porque estão relacionados com pessoas. São as
pessoas que tornam antiquadas ou actuais as nossas recordações. Por vezes
penso: tiraram-me algumas coisas, mas nunca me tiraram a comovente beleza da
vida.
E agora vos digo: de
vez em quando, aqui à beira desta cidade, invade-me o corpo o perfume forte de
Luanda. Não é de Angola, não é de África, não é um odor tropical, nada disso. É
o cheiro poderoso de Luanda, a bela. Uma mistura indefinível de húmus doce de
um chão antiquíssimo que em mim perdura, creio que desde sempre e para sempre.
Mesmo muito antes de conhecer Luanda.
Talvez o ventre
materno retivesse esse perfume estranho que só eu conheço, que apenas eu sinto.
E emergem imagens das ruas, das pessoas, da restinga, das dezenas e dezenas de
homens negros em frente às montras da Livraria Lello, na baixa de Luanda, lendo
«A Bola», cujas páginas estavam lá coladas, e os homens negros discutiam entre
si os desafios do futebol português, uns deles eram do Benfica, outros do
Sporting, e também havia simpatizantes do Belenenses e do F. C. do Porto.
TAMBOR
Canta tambor, rufa tambor
sensual, quente, grita e clama
que uma só hora de amor
queima a vida numa chama
Não há voz mais pura
para embalar cantos de amor
que a voz quente do tambor
batucando a noite escura...
Canta tambor, rufa tambor
sensual, quente, grita e clama
que uma só hora de amor
queima a vida numa chama






