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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Maio 2017




  Portugal está particularmente feliz por ter recebido a visita do Papa, por ter dois novos Santos, por o Benfica ser campeão e Salvador ter ganho o festival. Feliz por saber que Angola também partilha essas alegrias.

  Baptista Bastos partiu há pouco, mas deixou-nos textos que nos suavizam as agruras dos dias, assim como há 22 anos, também em Maio mas da Bahia, partiu Neves e Sousa.

   E é neste conflito de emoções que os recordo hoje, neste mês de Maio: o BB com um excerto da crónica “O cemitério dos príncipes negros” e o NS com o poema “TAMBOR”.



Sei muito pouco de muitas coisas.

Os sítios, quero dizer: os países, os bairros, as ruas só existem nas nossas lembranças porque estão relacionados com pessoas. São as pessoas que tornam antiquadas ou actuais as nossas recordações. Por vezes penso: tiraram-me algumas coisas, mas nunca me tiraram a comovente beleza da vida.

  E agora vos digo: de vez em quando, aqui à beira desta cidade, invade-me o corpo o perfume forte de Luanda. Não é de Angola, não é de África, não é um odor tropical, nada disso. É o cheiro poderoso de Luanda, a bela. Uma mistura indefinível de húmus doce de um chão antiquíssimo que em mim perdura, creio que desde sempre e para sempre. Mesmo muito antes de conhecer Luanda.

  Talvez o ventre materno retivesse esse perfume estranho que só eu conheço, que apenas eu sinto. E emergem imagens das ruas, das pessoas, da restinga, das dezenas e dezenas de homens negros em frente às montras da Livraria Lello, na baixa de Luanda, lendo «A Bola», cujas páginas estavam lá coladas, e os homens negros discutiam entre si os desafios do futebol português, uns deles eram do Benfica, outros do Sporting, e também havia simpatizantes do Belenenses e do F. C. do Porto.





TAMBOR

Canta tambor, rufa tambor

sensual, quente, grita e clama

que uma só hora de amor

queima a vida numa chama



Não há voz mais pura

para embalar cantos de amor

que a voz quente do tambor

batucando a noite escura...



Canta tambor, rufa tambor

sensual, quente, grita e clama

que uma só hora de amor

queima a vida numa chama

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