“A MORTE DE ZABELINHA”
“ O extracto deste texto, do
livro BAIXA E Musseques, de António Cardoso, foi escrito no Pavilhão Prisional
da PIDE em Luanda, em Novembro de 1961”,
“Pedro
tinha afundado a cabeça nos joelhos e, novamente se deixara vencer pelos
pensamentos. Aquela mudança apanhara-o desprevenido: quem ia pensar os brancos
iam fazer trabalho dos bares, nas esplanadas, nos cafés, nos hotéis, era mesmo
só criados da nossa cor a fazer o serviço. Agora? Já poucos… Caté nas cautelas,
na graxa. Se dá dinheiro, pronto… negro vai corrido…
De nada valeram as razões que apresentara
ao patrão, antes de ser despedido. – está bem… Sempre trabalhaste bem, mas eu agora preciso de
modernizar a casa… Vou fechá-la e abrir de novo. Um dia vens cá e vais ver como
ela ficou… Tem paciência – e, dito isto, julgando olhar aos seus anos de
serviço, foi à caixa registadora, agarrou num maço de notas, quase à toa, e
estendeu-lho.
Esteve vai não vai para não receber.
Hesitou. Mas…e depois se ele se zangava e ia sair maka?
Modernizar… Modernizar… Afinal essa
palavra é só dos brancos?! Agora vai pagar mil e quinhentos escudos ou mais, se
calhar, e a ele só pagava oitocentos e era só há pouco tempo. Quantos anos só
ganhou quinhentos? Mas não podia refilar, oitocentos mesmo poucos pretos que
ganhavam …”
Neste torrão de terra à beira mar plantado, os ditadores, colonos,
pigmeus ou lá o que quer que lhes chamemos, continuam a nascer e a ter as
mesmas atitudes.
Até na minha querida TAP, existe gentinha desse tipo, precisamente com
as mesmas atitudes, ou até pior. Estou triste e desiludido com os últimos
acontecimentos! A política é tramada, mas os homens(ou Trumps?) são piores. Mesmo
aqueles que têm o cólon contaminado.
Como neste país a Justiça anda pelas ruas da amargura, resta-nos a luta individual
pela dignidade, para manter viva a esperança de que os nossos filhos e netos
não se cruzem com este tipo de filhos-da-puta.
Em 1953, ano do meu nascimento, o relógio do Apocalipse esteve perto da
hora do Juízo Final. Eu sinto que já não me resta muito tempo, mas até lá não
me vou calar, muito menos atirar a toalha ao chão.
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