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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

                                                        Ao meu Amigo Diamantino


Amigo há quase 40 anos. Lembrando a primeira viagem a Nova Iorque em 1982, onde desperdiçamos o dinheiro pago pelo Hotel, uma vez que pouco mais dormíamos que 2 horas por noite. Lisboa era naquela época uma aldeia comparada com aquela cidade americana. Passávamos os dias e as noites maravilhados com aquele Novo Mundo, onde um “ovni” lhe caiu na testa e ele nunca nos autorizou a contar a estória. Desde aí, acompanhados quer pela família quer por outros amigos, viajamos juntos para vários países. No Jumbo da TAP, com escala em Kinshasa, fomos até Pretória e Joanesburgo, onde um amigo do Diamantino nos foi “mostrar” o Soweto, no tempo do inconcebível apartheid, e onde presenciamos verdadeiras cenas a preto e branco.
  Em Oslo, pela primeira vez, numa sexta-feira Santa, jantamos carne sem pagamento de bula e com a “bênção” do único padre que falava português, era brasileiro e chamava-se João. Passamos pelas célebres montras de Amsterdão, Passeamos por Milão, Madrid, Genebra, etc. Acompanhou-me naquela viagem histórica e memorável  a Luanda, onde chegamos ao amanhecer e regressamos à noite com destino a Lisboa, em Março de 1992. Conheceu a Maianga, o Rio Seco, o Liceu Salvador Correia e almoçamos lagosta na ilha de Luanda onde no século XV se apanhavam os Zimbos, o primeiro “dinheiro”utilizado em Angola, quando a Ilha era propriedade do Rei do Kongo.
  De África, o Diamantino, só conhecia a Guiné onde prestou serviço militar, onde uma granada lhe fez perder os sentidos e por pouco lhe tirava a vida.
  Várias vezes fomos de avião ao Porto, onde chegamos a assistir no antigo estádio das Antas a um Portugal 2 – Checoslováquia 0. Assistimos à estreia do sueco Stromberg no antigo estádio da Luz, na companhia do meu amigo Tavares, autor do livro Só … e agora às orquídeas.
  Trabalhamos no mesmo serviço durante cerca de 5 anos, cerca de 13 horas por dia incluindo sábados e feriados. Como aqueles tempos já eram difíceis. Conheceu a aldeia e a família da minha avó Camila, na véspera do S. Sebastião, padroeiro da região, festejado anualmente a 20 de Janeiro. Ainda hoje ouço as palavras da minha saudosa avó a perguntar pelo Sr. Diamantino.
  Inventamos juntos, por razões absolutamente justificáveis e racionais, as “meias greves”, isto é, fazíamos greve até ao meio-dia e deixávamos de aderir a partir dessa hora. Não conheço ninguém que não goste do Diamantino.
  Muitas, mas muitas mais belas estórias poderia contar, mas o espaço é curto. Quem sabe ainda um dia venhamos a escrever um livro a 4 mãos?
  Por agora fica um Abraço e votos de felicidades, extensivos à Ermelinda e ao Pedro, filho de ambos.




Em 1992 na viagem relâmpago que ambos fizemos até Luanda, por baixo da milenar mulembeira do meu bairro, a quem a Isabel escreveu este poema, quando soube que tinha "desaparecido".



          A Mulembeira

Tu que criaste raízes sem fim
Tu que protegeste com teus braços
Quem precisou de um pouco de sombra
Tu não podias morrer.

Ouviste o meu primeiro choro,
Foste testemunha das minhas primeiras brincadeiras
Viste-me crescer e ser mulher e mãe
Tu, amiga, não podias morrer.

Eras linda e grande,
Todos no bairro te conheciam
Foste testemunha de tantos segredos
Ouviste e assististe a tanta felicidade e tristeza
Teus braços eram fortes e calorosos
Quem te conheceu nunca
te esquecerá

Em teu redor as crianças brincavam
Os velhotes descansavam o seu cansaço
O tempo corria sem contar
O vento soprava leve e brando

A ti chegava o cheiro do mar
Os pássaros chilreavam à tua volta
Enfim, foste o abrigo que tantos desejavam

Os homens são cruéis, e destroem sem pensar
Não há limite para tanta injustiça e insensatez
Talvez um dia, quando já for tarde
Se lembrem que já não podem voltar atrás

A Maianga ficou mais pobre
Perdeu quem sempre pertenceu àquele lugar
Eras tão velhinha e tão enrugada
O teu único alimento era a água da chuva

Querida mulembeira que tão bem nós conhecemos
Tanta falta fazes no teu lugar
Eras a beleza daquela terra batida cor de cobre

                        Isabel Monteiro

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